Entre o biquíni e o algoritmo: quando o pedido de ajuda não viraliza
Mas quem vive de verdade sabe: a vida não cabe num story.
Quando me mudei de São Paulo de volta para Maceió, ouvi um comentário que me marcou. Disseram que minha vida devia ser muito boa, porque eu estava sempre na praia. Como se uma foto significasse um dia inteiro de lazer. Como se eu não trabalhasse muito. Como se tirar 30 minutos ou uma hora para caminhar à beira-mar fosse algo incompatível com uma rotina intensa. Cada pessoa organiza o próprio tempo de um jeito. Para alguns, é a academia. Para outros, um café. Para mim, muitas vezes, é a praia. Afinal, por isso moro em Alagoas.
As redes sociais não mostram o cansaço, as contas acumuladas, as preocupações, as noites mal dormidas. Mostram recortes, frames.
Eu estudo comunicação, tenho especialização na área e hoje faço mestrado pesquisando justamente as mídias digitais. Sempre tentei manter certa distância dessa lógica performática. Evito expor demais minha vida pessoal. Raramente posto fotos com meu filho, primeiro porque ele era criança, depois porque simplesmente não gosta de fotos e eu respeito isso.
Mas a vida real tem um jeito de nos atravessar, inclusive quando estamos pesquisando o que acontece nas redes.
No último mês, enfrentei uma situação extremamente delicada com meu gato, Perigo. Ele passou por duas cirurgias na bexiga, ficou 15 dias internado e os custos ultrapassaram todos os limites possíveis. Dívidas se acumularam. Cartões de crédito foram comprometidos. Até o pagamento do aluguel foi afetado. E a batalha ainda não terminou. Ele continua em tratamento, precisa de ração específica, novos exames, acompanhamento com nefrologista e talvez uma nova cirurgia.
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| Perigo entrou no Dok Hospital Maceió em 12/02/26 e passou por cirurgia de emergência. |
Postei nos stories, no feed, no meu perfil pessoal, no profissional e também no perfil dos meus pets, que tem mais de 8 mil seguidores. Mas o engajamento foi mínimo. O alcance ficou praticamente restrito às pessoas que já haviam ajudado ou que já têm uma relação próxima comigo e com a história do Perigo.
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| Perigo está em casa, mas tem cristais na bexiga e cálculos na vesícula. |
A filósofa Shoshana Zuboff define o capitalismo de vigilância como uma lógica em que “nossa vida é traduzida de maneira unilateral em dados, expropriada e modificada em seu propósito como novas formas de controle social, tudo isso a serviço de interesses de outrem” (ZUBOFF, 2020, p. 71). Nesse sistema, o que aparece para nós não é necessariamente o que é mais urgente ou mais humano, mas o que é mais capaz de gerar interação, retenção e lucro.
O filósofo Byung-Chul Han ajuda a compreender esse cenário ao observar que, no regime atual, “o corpo é, hoje, em primeira linha um objeto da estética e do fitness. É absorvido pela indústria da beleza” (HAN, 2022, p. 9). Isso ajuda a explicar por que imagens que performam bem-estar e aparência tendem a ganhar mais visibilidade do que relatos de sofrimento real. A vida passa a ser vivida também como exibição, como produção de si para o olhar do outro.
É por isso que hoje me faço, e faço a você, uma pergunta sincera: o que está acontecendo com a nossa capacidade de enxergar o outro para além das imagens?
Eu não sei o que é pior: os algoritmos que não entregam meu pedido de ajuda ou o fato de que muitas pessoas curtem uma foto minha de biquíni, mas não se sensibilizam com a situação real que estou vivendo. Não se trata de apontar culpados individuais. Trata-se de reconhecer que estamos inseridos numa lógica que privilegia a aparência e o espetáculo.Gastei tudo o que podia e o que não podia para salvar a vida do Perigo. Consegui arrecadar cerca de 40% do valor graças à solidariedade de amigos, familiares e colegas de trabalho. Sou profundamente grata por isso. Mas ainda há uma dívida grande e um tratamento caro pela frente.
Por isso, continuo pedindo ajuda.
Quem puder contribuir pode participar da rifa solidária no valor de R$10 ou ajudar pela vaquinha a partir de R$25. Cada número da rifa concorre a dois prêmios: um dia de creche com banho no final de semana na Pet Norte Park e um kit de produtos veganos com sabonete, batom líquido, base sólida com proteção solar e um shampoo pet. Pode parecer pouco, mas o pouco de cada pessoa faz uma diferença enorme. Preciso arrecadar pelo menos R$3000 até o dia 12 de abril, data que farei o sorteio no perfil @lisaematilha no Instagram.
Mais do que um pedido financeiro, este é um pedido humano.
O que salva é a solidariedade.



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