21 de março: Basta de racismo! Negras e negros seguem sendo alvo do racismo e da exploração
Em defesa da juventude negra, da vida das mulheres e de um serviço público com igualdade racial
O Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, em 21 de março, ocorre em um contexto marcado pela persistência da violência, da exclusão social e das desigualdades no mundo do trabalho e no acesso a direitos. No Brasil, onde a população negra representa cerca de 56% dos habitantes, os impactos do racismo continuam evidentes na segurança pública, na renda, na educação e também dentro do próprio Estado.
Dados dos últimos anos evidenciam o agravamento da violência racial no país. A 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em julho de 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que os crimes de racismo passaram de 14.919 para 18.923 registros entre 2023 e 2024, com alta de 26,3% na taxa por 100 mil habitantes. Já os casos de injúria racial cresceram de 12.813 para 18.200, aumento de 41,9% no mesmo período.
Juventude negra segue sendo a principal vítima da violência
A violência racial tem uma face cruel muitas vezes invisibilizada: as mortes provocadas pelo próprio Estado, que geralmente não são contabilizadas como crimes de racismo. No Brasil, a letalidade policial atinge de forma desproporcional homens jovens negros moradores das periferias, evidenciando a seletividade racial das políticas de segurança pública.
Levantamento do Instituto Sou da Paz, com base em dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, revela que, somente entre janeiro e agosto de 2024, 441 pessoas foram mortas por policiais em serviço no estado, média de quase duas vítimas por dia. Destas, 64,17% (283) eram negras (pretas e pardas). O número é 83,8% maior do que o registrado no mesmo período de 2023.
O recorte etário confirma o impacto sobre a juventude. A maioria das vítimas tinha entre 15 e 40 anos de idade, e entre adolescentes e jovens de 15 a 24 anos o crescimento das mortes foi de cerca de 60% nos primeiros oito meses de 2024 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo o levantamento, houve aumento em todas as faixas etárias, mas de forma desigual, com mais que a duplicação das mortes entre pessoas de 31 a 40 anos, que passaram de 42 em 2023 para 91 em 2024 — alta de 116,7%.
O racismo na atuação das forças de segurança é uma característica histórica no país e revela como a violência estatal se concentra sobre territórios periféricos e sobre a juventude negra.
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O Massacre de Paraisópolis permanece como símbolo dessa realidade. O Sindsef-SP acompanha as famílias dos nove jovens mortos em 2019 durante ação policial em um baile funk na comunidade, denunciando a impunidade e a morosidade das investigações. Ao lado de movimentos sociais, o sindicato se solidariza às mães das vítimas na luta por memória, verdade e justiça, além de defender mudanças nas políticas de segurança que seguem atingindo principalmente a juventude negra e periférica.
Mulheres negras: a violência tem gênero, cor e classe
A desigualdade racial também se expressa na violência contra as mulheres. Estudo da Fundação Friedrich Ebert, apresentado na Câmara dos Deputados, aponta que 68% das vítimas de feminicídio no Brasil são negras. O levantamento mostra ainda que esse tipo de crime cresceu 176% em uma década, passando de 527 casos no primeiro ano após a lei do feminicídio para 1.455 registros no período mais recente.
Dados mais recentes do Instituto Sou da Paz, referentes a 2024, reforçam esse cenário: 67,5% das mulheres vítimas de homicídio eram negras, proporção que chega a 72,3% nos casos de violência armada. Nos feminicídios, o perfil é semelhante, com 63,3% das vítimas sendo mulheres pretas e pardas. A desigualdade racial também aparece nas taxas de mortalidade: enquanto a taxa de homicídios de mulheres negras é de 4,0 por 100 mil habitantes, entre mulheres não negras é de 2,4. Em situações de violência armada, a disparidade é ainda maior — mais que o dobro entre mulheres negras (2,04) em comparação às não negras (0,93).
A forma como essa violência ocorre também difere. Em 2024, a maioria dos homicídios de mulheres brancas ocorreu dentro da própria residência (46%), enquanto entre mulheres negras houve maior equilíbrio entre crimes cometidos em vias públicas (33%) e no ambiente doméstico (31%), indicando maior exposição à violência em diferentes espaços.
Casos recentes evidenciam a gravidade dessa realidade, como a morte da médica ginecologista e oncologista Andréa Marins Dias, atingida por disparos durante uma operação policial no Rio de Janeiro. O episódio reacendeu o debate sobre a letalidade das ações de segurança pública e a necessidade de investigações rigorosas e responsabilização efetiva dos envolvidos.
Apesar da violência e das desigualdades, mulheres negras seguem protagonizando processos de resistência, organização sindical e mobilização social em defesa de direitos.
Serviço público ainda reproduz desigualdade racial
O racismo estrutural também se manifesta no interior do Estado. Dados do Observatório da Presença Negra no Serviço Público, com base em informações da ENAP, CNJ e TSE, mostram que, embora a população negra seja maioria no país, ela representa cerca de 40% dos servidores do Poder Executivo Federal e apenas 28% no Judiciário.
A desigualdade aumenta quando se observam os cargos ocupados. No Executivo, pessoas negras ocupam cerca de 51% das funções de nível médio, mas apenas 33% dos cargos de nível superior. Em posições de liderança, a presença negra é ainda menor, em torno de 30%, evidenciando barreiras ao acesso aos espaços de decisão.
Entre as mulheres, o cenário é ainda mais desigual. Em São Paulo, servidoras negras representam cerca de 34,5% do total de mulheres no serviço público e ocupam 31,4% das funções de liderança. Além disso, servidores negros recebem, em média, 21% a menos do que servidores brancos, mesmo apresentando maior tempo de serviço.
Esses dados reforçam a necessidade de ampliar políticas de igualdade racial no serviço público, garantindo acesso real à qualificação, promoção e valorização profissional.
21 de março é uma data de luta e denúncia do racismo
O 21 de março foi instituído pela Organização das Nações Unidas em memória do Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960, quando 69 pessoas foram assassinadas durante protesto contra o regime de apartheid na África do Sul. O episódio tornou-se um marco da resistência internacional do povo negro contra a segregação racial.
No Brasil, o reconhecimento do racismo estrutural pelo Supremo Tribunal Federal reflete a necessidade de políticas públicas que enfrentem as desigualdades históricas e garantam direitos à população negra.
Transformar essa realidade exige enfrentar o modelo de segurança pública herdado da ditadura. É preciso avançar na desmilitarização das polícias, romper com o controle militar sobre sua formação e funcionamento e garantir controle social permanente das ações policiais por meio da participação popular. É urgente pôr fim à violência e ao abuso policial, com investigações rigorosas, imparciais e responsabilização efetiva dos agentes envolvidos em violações.
Também é fundamental investir em educação antirracista, ampliar políticas afirmativas e democratizar o acesso aos espaços de decisão no Estado. A construção de um serviço público mais diverso e comprometido com a justiça social é parte central desse processo.
Neste 21 de março, o Sindsef-SP reafirma seu compromisso com a defesa da vida da juventude negra, com o enfrentamento à violência contra as mulheres e com a luta por igualdade racial no mundo do trabalho e nas instituições públicas. Combater o racismo é defender direitos, fortalecer a organização coletiva e construir um país mais justo para toda a classe trabalhadora.
Foto 2: Protesto contra adiamento da 8ª audiência do Massacre de Paraisópolis. Crédito: Maisa Mendes


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