Caso Thales Machado: desinformação, misoginia e o tribunal digital que condena a vítima antes da verdade
O caso envolvendo o ex-secretário de Governo de Itumbiara (GO), Thales Naves Alves Machado, não expôs apenas uma tragédia familiar marcada pela morte de duas crianças. Ele revelou a rapidez com que parte das redes sociais e de portais que se apresentam como jornalismo transformam uma mulher em culpada para aliviar a responsabilidade do agressor. No centro desse turbilhão está Sarah Tinoco Araújo, mãe das crianças e alvo de uma narrativa que mistura moralismo, especulação e desinformação.
Desde o início, a cobertura de algumas mídias digitais apostou na ideia de que uma suposta traição teria provocado a tragédia. Particularmente, me chamou atenção o título “E agora? Ninguém julga a traição da mulher” de uma notícia publicada em colaboração pelos perfis @alagoasdeverdade.com.br, @portaldealagoas.com.br, @coruripedeverdade, @portalal7 e @paripueirapoliticaboa. Ao mesmo tempo, cindo perfis de supostos portais de jornalismo de Alagoas divulgaram o mesmo absurdo. Isso não é jornalismo. Isso não é verdade. Isso é desinformação, com requinte de falta de humanidade e de compaixão e misoginia.
A chamada não apenas desloca o foco do crime como cria um enquadramento emocional que convida o público a julgar a vítima. O problema não é só editorial, é ético. Ao transformar suspeitas sobre a vida privada em eixo central da narrativa, esses conteúdos ajudam a legitimar um julgamento coletivo que ignora o essencial: nada justifica o assassinato.
Por narrativas como essa, extremamente machistas, que colocam a vítima no lugar do criminoso, que os dados sobre a violência contra a mulher e feminicídios são tão alarmantes!
A própria investigação e especialistas apontaram indícios de violência vicária, quando filhos são atacados para atingir emocionalmente a mãe. Ainda assim, a narrativa da traição ganhou mais destaque do que o contexto de violência de gênero.
É exatamente esse mecanismo que Fabiano Couto Corrêa da Silva descreve no artigo "A Sociedade da Desinformação", ao afirmar que "(...) além de notícias falsas, as notícias reais são manipuladas e orientadas para polarizar ideologicamente, requerendo uma adaptação da sociedade na construção de marcos regulatórios..." (Silva, 2022, p. 143). Não se trata apenas de inventar fatos, mas de escolher quais elementos serão ampliados para gerar indignação.
No caso de Sarah Tinoco Araújo, a consequência foi brutal. Enquanto lidava com o luto, ela se tornou alvo de ameaças e precisou deixar o velório escoltada. O tribunal da internet já havia decidido sua culpa. Esse fenômeno não é novo. Como lembra Silva (2022, p. 144), "as autoridades romanas manipulavam as emoções das multidões para despertar um sentimento de indignação e rejeição que legitima a condenação política, ela mesma baseada na reprovação moral". A multidão digital apenas atualizou práticas antigas: transformar dor em espetáculo e moralizar tragédias complexas.
Outro ponto central é a forma como certos portais exploram a narrativa construída pelo próprio agressor antes de morrer. A carta publicada por Thales Machado nas redes sociais, mencionando suspeitas de traição, foi reproduzida sem o devido contexto por alguns perfis. Isso contribuiu para deslocar a responsabilidade do crime para a vítima.
Como aponta Silva (2022, p. 145), “O objetivo é simples: manipular a realidade dos fatos. Esse mecanismo envolve, por exemplo, desacreditar uma figura pública, desestabilizá-la ou minar sua reputação. Uma vez que o boato é compartilhado pelo maior número de pessoas, ela se torna crível”. Ao repetir versões parciais e imagens obtidas por terceiros, a narrativa digital ajudou a construir uma condenação moral coletiva.
Não por acaso, esse tipo de conteúdo prospera nas plataformas. Thiago Henrique de Jesus-Silva, no artigo "Desinformação e economia política nas plataformas digitais", explica que “… a monetização do engajamento nas plataformas digitais cria incentivos econômicos que favorecem a disseminação de desinformação, colocando em risco a integridade da informação e exacerbando a polarização política.” (Jesus-Silva, 2024, p. 130) Em outras palavras, títulos sensacionalistas e julgamentos morais geram cliques, comentários e compartilhamentos — e isso vale mais do que a verdade para quem depende do alcance.
A escolha editorial também revela posicionamentos ideológicos. Silva é direto ao afirmar: “A seleção e construção das notícias, do ponto de vista discursivo-argumentativo, nos sinaliza a inexistência de que não há neutralidade ou imparcialidade informativa. A própria defesa deste tipo de argumento do ponto de vista editorial, trata-se, acima de tudo de uma posição ideológica...” (2022, p. 146). Quando um portal decide destacar a suposta traição como causa da tragédia, não está apenas informando: está reforçando a lógica patriarcal que transforma mulheres em responsáveis pela violência que sofrem.
O mais grave é que esse tipo de narrativa não surge no vazio. Ele dialoga com uma cultura que, historicamente, tentou justificar crimes por honra — tese já considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Se nem a chamada “legítima defesa da honra” encontra respaldo jurídico, por que a internet insiste em reviver esse argumento, agora travestido de opinião?
A resposta talvez esteja na própria lógica das redes. Como observa Jesus-Silva (2024, p. 121), “A ascensão de políticos populistas e ultraconservadores (...) é resultado direto de uma comunicação caótica, onde a verdade se torna irrelevante e o que importa é a capacidade de mobilizar emocionalmente as massas.” A narrativa da traição funciona porque simplifica a realidade e oferece um vilão fácil: a mulher que decidiu seguir em frente. O interessante é que essa narrativa é bem típica do pensamento ultraconservador.
O caso Thales Machado deveria servir como alerta para o jornalismo e para quem consome informação nas redes. Informar não é explorar tragédias com manchetes provocativas nem transformar suspeitas em verdades absolutas. Informar é contextualizar, ouvir especialistas, proteger vítimas e reconhecer que a responsabilidade por um crime pertence exclusivamente a quem o cometeu.
No fim, a pergunta que permanece não é sobre a vida íntima de Sarah Tinoco Araújo, mas sobre o papel das plataformas e dos portais que se dizem jornalísticos. Quando a desinformação encontra o machismo estrutural, a vítima é condenada duas vezes: primeiro pela violência, depois pelo julgamento público. E talvez o maior desafio do jornalismo hoje seja justamente resistir a essa lógica — escolher a verdade mesmo quando o algoritmo pede espetáculo.
Texto: Lara Tapety
Foto: Reprodução
Referências:
JESUS-SILVA, Thiago Henrique de. Desinformação e economia política nas plataformas digitais. Lumina, Juiz de Fora, PPGCOM – UFJF, v. 18, n. 3, p. 117-134, set./dez. 2024. DOI: 10.34019/1981-4070.2024.v18.44963.
SILVA, Fabiano Couto Corrêa da. A sociedade da desinformação. LOGEION: Filosofia da Informação, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 143-161, set. 2022/fev. 2023.

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