Bota Velha: área de assentamento ameaçada por condomínio privado é reocupada no Abril Vermelho em Murici (AL)

A luta pela terra voltou a se intensificar em Murici, na Zona da Mata de Alagoas. No último dia 17 de abril, data que marca os 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, organizações e movimentos do campo reocuparam a área de cerca de 50 hectares do Bota Velha, que havia sido alvo de aprovação na Câmara Municipal para transformação em zona urbana e implantação de um condomínio privado.

A ação integra a jornada do Abril Vermelho, que, todos os anos, resgata a memória do massacre, denuncia a impunidade histórica e reafirma a luta pela reforma agrária no Brasil.

Audiência na Câmara em 29/12/2025. Foto: Lara Tapety

A reocupação ocorre poucos meses após a Câmara de Murici aprovar, em sessão extraordinária durante o recesso parlamentar, o projeto que inclui a área em disputa no perímetro urbano, desconsiderando o conflito agrário e os questionamentos apresentados por famílias camponesas e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Acordo provisório 

Segundo o coordenador da CPT na região, Jailson Tenório, após o ato na área foi estabelecido um novo acordo com o Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral). O órgão solicitou o prazo de uma semana para buscar uma solução para o impasse.

Como parte do acordo, ficou definido que apenas a CPT permanecerá no local, enquanto as demais organizações e movimentos se retiram temporariamente. Caso não haja resposta concreta do Estado dentro do prazo, a mobilização será retomada com o retorno das organizações para fortalecer a ocupação.

Mesmo com a saída parcial, as bandeiras seguem fincadas na área, simbolizando a unidade dos movimentos e a permanência da luta.

Mobilização estadual fortalece a jornada de luta

A reocupação em Murici se soma a uma série de ações realizadas em Alagoas durante o Abril Vermelho. Na manhã do dia 15 de abril, centenas de famílias Sem Terra ocuparam a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, no Centro de Maceió, cobrando o avanço das políticas de reforma agrária no estado.

Cerca de 400 trabalhadores e trabalhadoras rurais participaram da ação, denunciando a lentidão nos processos de assentamento e reivindicando condições para produzir e viver no campo com dignidade.

Em carta divulgada durante a ocupação, os movimentos reforçaram a centralidade da reforma agrária para o desenvolvimento do estado: a produção de alimentos saudáveis, o fortalecimento das comunidades rurais e a garantia de condições mínimas para quem vive da terra.

Memória, denúncia e permanência da luta

Ao completar três décadas do massacre que vitimou 21 trabalhadores rurais no Pará, o Abril Vermelho segue como um marco político e simbólico da luta pela terra no Brasil. Além de fazer memória, as ações realizadas em Alagoas evidenciam a permanência dos conflitos e a atualidade das reivindicações.

No caso de Bota Velha, a reocupação da área reafirma a resistência das famílias camponesas diante de decisões institucionais que ameaçam a integridade de um território conquistado após duas décadas de luta.

Entre acordos provisórios e incertezas, a mobilização segue como instrumento de pressão e visibilidade. Para os movimentos, a mensagem permanece direta: terra é para quem nela trabalha, e a reforma agrária segue sendo condição para justiça social no campo.

Entenda o conflito em Bota Velha

Acampamento Bota Velha, 2011. Foto: Lara Tapety


O conflito em Bota Velha começou em 1999, com a ocupação da área por famílias camponesas que enfrentaram despejos e ameaças por mais de duas décadas. Em 2022, o Governo de Alagoas desapropriou os 513 hectares para a reforma agrária, onde hoje vivem cerca de cem famílias.

A disputa foi reaberta com questionamentos sobre cerca de 50 hectares, baseados em registros cartoriais posteriores à desapropriação. Para a CPT, há indícios de irregularidades, já que o Estado pagou pela área total.

Em dezembro de 2025, a Câmara de Murici aprovou a inclusão da área em disputa na expansão urbana, abrindo caminho para um condomínio privado, mesmo com o conflito ainda em andamento.


Lara Tapety / CPT-AL

Foto: Tarcísio Barbosa / Terra Livre



Veja a carta da ocupação do Incra:


Por que ocupamos o Incra em Maceió?

Por mais uma vez os camponeses e camponesas Sem Terra estão em Maceió, ocupando o prédio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Somos 400 pessoas de vários cantos de Alagoas com um só grito: queremos avanço para o campo alagoano!

Entendemos que quando o campo avança, toda Alagoas também cresce. Queremos produzir alimentos saudáveis para abastecer a mesa do povo alagoano e isso só é possível com a realização de políticas públicas que fortaleçam a vida do homem e da mulher que vive nas comunidades rurais.

Nossa permanência no INCRA, órgão responsável pelo cumprimento de parte dessas políticas públicas, é mais uma tentativa de chamar a atenção da sociedade: se o campo não planta, a cidade não janta! Por isso seguimos em luta!

Queremos ainda a imediata suspensão de qualquer tentativa de despejo às famílias que hoje vivem sob a lona preta, em acampamentos do Sertão ao Litoral de Alagoas. Sem a democratização do acesso à terra, não conseguimos concretamente avançar na construção de uma Alagoas justa e verdadeiramente comprometida com a vida de seu povo. Queremos terra para quem nela trabalha!

Em especial, em abril, nos somamos às lutas em todo o Brasil que rememoram o Massacre de Eldorado do Carajás, onde 21 trabalhadores foram assassinados no Pará por lutarem por Reforma Agrária.

Não deixaremos essa memória ser esquecida e, em nome de tantos trabalhadores e trabalhadoras que morreram na luta, seguimos reafirmando: nosso projeto é de vida! Queremos povo vivo, floresta em pé e comida na mesa!

Por essas bandeiras estamos em Maceió!

Por essas bandeiras estamos em luta!

Basta de violência contra os povos e a natureza!

Reforma Agrária: para Alagoas alimentar!



Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST)
Comissão Pastoral da Terra (CPT)
Frente Nacional de Luta (FNL)
Movimento Popular de Luta (MPL) 
Movimento Via do Trabalho (MVT)
Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL)
Movimento Terra Livre(TL)

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