Mulheres camponesas unem forças em Alagoas na luta pela Reforma Agrária

 


Em Alagoas, no contexto das mobilizações do mês da mulher, camponesas participaram da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, sob o lema "Agronegócio é violência e crime ambiental. A luta das mulheres é contra o capital".

A iniciativa reuniu centenas de trabalhadoras rurais em uma marcha pelo Centro de Maceió, ato político com mulheres da cidade, debates e reuniões com autoridades.

A principal reivindicação da jornada foi a destinação das terras da massa falida das usinas Laginha e Guaxuma para a Reforma Agrária. Outras pautas incluíram o acesso a crédito, o apoio às feiras organizadas pelos movimentos sociais, a construção de moradias nos assentamentos e a regularização fundiária de áreas emblemáticas.


A Jornada Nacional das Mulheres Sem Terra em Alagoas se destacou por ser fruto da unidade entre oito diferentes movimentos e organizações sociais: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Frente Nacional de Luta (FNL), Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), Movimento de Luta pela Terra (MLT), Movimento Popular de Luta (MPL), Movimento Social de Luta (MSL), Movimento Via do Trabalho (MVT) e Movimento Terra Livre (TL).

Acampamento Dandara dos Palmares e ato em defesa da Reforma Agrária


As mulheres camponesas montaram o acampamento Dandara dos Palmares, na Praça Sinimbu, no Centro de Maceió, na noite da terça-feira, 11 de março. O local foi palco de debates e partilha de experiências sobre a luta pela terra.

Na manhã da quarta-feira, 12 de março, cerca de 800 mulheres camponesas marcharam pelas ruas do Centro de Maceió e ocuparam a superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A ocupação cobrou agilidade do órgão na resolução das pautas das camponesas de todas as regiões do estado.

"Nossa Jornada vem para Maceió pautar a luta e a necessidade da Reforma Agrária na defesa da vida das mulheres do campo. São as mulheres também as responsáveis por levar comida para a mesa da sociedade, e essa é a nossa bandeira: Reforma Agrária para produzir alimentos e contribuir com o desenvolvimento do nosso estado e do nosso país", afirmou Margarida da Silva, da Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na ocasião.
Na noite do mesmo dia, o acampamento Dandara dos Palmares recebeu o Ato Político em Defesa da Reforma Agrária, reunindo apoiadoras e organizações parceiras da luta pela terra. A atividade reafirmou a unidade do campo e da cidade na defesa da produção de alimentos saudáveis e do enfrentamento à violência contra as mulheres.

A luta pela terra e os relatos das camponesas

Na quinta-feira, 13 de março, pela manhã, as participantes da jornada partilharam experiências e desafios enfrentados na luta pela terra.

"O que me levou ao assentamento São Félix foi o desemprego. Deus entrou na minha vida e na vida dos meus filhos. Meus filhos hoje trabalham. Se o governo liberasse terra para os pobres, os pobres hoje não estariam nas praças, com filhos usando drogas e até assaltando por aí. Isso é responsabilidade dos governos, que não ajudam os pobres que trazem o alimento para a mesa dos ricos. Os grandes empresários só plantam cana e têm indústria. Somos nós que trazemos a abóbora, a melancia, a batata, a macaxeira e o feijão", relatou Maria Rita dos Santos, assentada em Major Isidoro.
Diálogo com o Tribunal de Justiça de Alagoas

Ainda na quinta-feira, lideranças dos movimentos agrários participaram de uma reunião com o presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL), desembargador Fábio Bittencourt. A pauta central foi a situação das cinco mil famílias acampadas em terras das usinas Laginha e Guaxuma.

Participaram do encontro os desembargadores Tutmés Airan de Albuquerque e Fábio Ferrario, o magistrado auxiliar da Presidência e integrante da comissão de juízes que atua no processo de falência da Laginha Agro Industrial, Thiago Morais, e o coordenador de Direitos Humanos do TJAL, Pedro Montenegro.

A coordenadora nacional do MST, Débora Nunes, avaliou a reunião como um passo importante para avançar na negociação:

"Nosso diálogo com o presidente é no sentido de buscar uma solução que resolva a situação dos credores da massa falida e das famílias, mas também que se atentem para os mais vulneráveis e, nesse caso, somos nós, as famílias acampadas nesses dois agrupamentos".


Reunião entre Incra e TJAL aponta novos encaminhamentos


Dias após as mobilizações, a questão fundiária das usinas Laginha, Guaxuma e Uruba foi tema de reunião entre o Incra e o Tribunal de Justiça de Alagoas. O objetivo foi articular uma resposta institucional para evitar conflitos e encontrar uma solução para a destinação das terras.

O Incra está finalizando estudos técnicos para avaliar a viabilidade da aquisição das áreas por meios legais, evitando litígios judiciais. A expectativa é que, a partir desses estudos, o governo federal inicie o processo de regularização fundiária e assentamento das famílias acampadas.

Enquanto aguardam um desfecho definitivo, as camponesas seguem mobilizadas, reivindicando uma solução que garanta seu direito à terra e à produção de alimentos.

A Jornada Nacional das Mulheres Sem Terra em Alagoas demonstrou a força da unidade das organizações e dos movimentos sociais na defesa da Reforma Agrária e dos direitos das trabalhadoras rurais. Como resultado das mobilizações, as mulheres conquistaram reuniões estratégicas no TJAL, no Incra e seguem em diálogo para viabilizar uma audiência com o governador do estado, Paulo Dantas.



Lara Tapety / CPT Alagoas
Foto 1: Mykesio Max / MST Alagoas 
Foto 2: Lara Tapety / CPT Alagoas

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