Seminário sobre Segurança para Mulheres Comunicadoras e Jornalistas

Nos dias 09 e 10 de fevereiro de 2023 participei do Seminário sobre Segurança para Mulheres Comunicadoras e Jornalistas, realizado em São Paulo. 

O evento contou com a participação exclusivamente de mulheres que atuam na área de comunicação em espaços onde vivem ou viveram sob situações de ameaças e violência. São comunicadoras, jornalistas de formação ou não, de estados do norte a sul do Brasil, a exemplo do Acre, Alagoas, Distrito Federal Maranhão, Mato Grosso, Pará, Roraima e Santa Catarina. Entre as participantes estavam mulheres indígenas, quilombolas, de matriz africana, negras e brancas atuantes no terceiro setor. 

Eu, enquanto assessora de comunicação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Alagoas e integrante da Rede de Proteção a Jornalistas e Comunicadoras, e Rejane Barros, radialista e coordenadora da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço), representamos o estado de Alagoas. 

No primeiro dia do seminário, 09, escutamos e partilhamos nossos relatos sobre o que é ser mulher comunicadora. Contamos nossas experiências enquanto mulheres, mães e trabalhadoras. Foram muitos exemplos de enfrentamento ao machismo, de resistência e força para não apenas sobreviver como, também, seguir lutando para ter voz e dar voz a quem historicamente vem sendo invisibilizado e/ou sofrendo todo tipo de discriminação. 

A mulherada relatou casos de sexualização, objetificação, misoginia, difamação e diversas formas de violência. Algumas falaram que receberam propostas de fazer “teste do sofá” para conseguir emprego ou aumento/equiparação salarial com homens; outras, sofreram assédio sexual ou foram descredibilizadas com o argumento de estarem com roupas curtas; muitas enfrentaram o preconceito em seu trabalho simplesmente por serem mães; a ampla maioria já passou por situação de receber ofensas anônimas nas redes sociais. 

Se os homens que fazem a cobertura jornalística em áreas de conflitos sociais temem pelas suas vidas, as mulheres comunicadoras convivem ainda mais com o medo. E, o medo não é apenas da morte, mas do estupro e da violência contra seus filhos e familiares. 

Mas, elas seguem firmes. Batem o pé e buscam ajuda, umas com as outras, para continuar trabalhando e sobrevivendo. Neste sentido, as participantes também debateram as estratégias de resistência e proteção pelas próprias mulheres.

Ainda na quinta-feira, 09, houve uma palestra com o tema “Introdução a proteção holística”, isto é, proteção integral. Essa visão compreende três dimensões: proteção física, proteção emocional e segurança da informação. Essa última dimensão foi explanada em uma oficina prática. A ideia é pensar a proteção das mulheres a partir de uma prática coletiva. Uma cartilha sobre esse tema foi entregue a todas presentes. 

Na sexta-feira, 10, tivemos a mesa “Gênero, comunicação e política”, com Amelinha Teles. Maria Amélia de Almeida Teles é uma das principais vozes que denunciam os abusos sofridos durante a Ditadura Militar no país. Ela foi presa e torturada pelo DOI-Codi quando era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Ativista desde 1960, Amelinha foi presa pela primeira em 1964, logo após o golpe, e pela segunda vez em 1972. Em cerca de 10 meses de reclusão no total, passou pelo DOI-Codi/SP, Deops/SP, Presídio do Hipódromo e Casa do Egresso.

“Só penso numa coisa, que quem me levou a ficar dentro da sala de tortura, sentada na cadeira de dragão, toda urinada, evacuada, vomitada, nua - devia estar suada porque lá dentro fazia muito calor - porque lá dentro era tudo fechado para que a vizinhança não ouvisse nossos gritos, foi o na época Major, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Então vocês imaginem eu ouvir do presidente - que não foi reeleito, então ex-presidente - ouvir ele elogiando esse torturador”, disse Amelinha.

Ela lembrou que seu torturador foi o único reconhecido como tal pelo Estado: 

“Ontem eu falei com vocês que ele foi o único torturador declarado como torturador pelo Estado brasileiro pelas três instâncias. Na primeira, na segunda e na terceira. Ele foi declarado torturador pelo Fórum Cível do Fórum João Mendes, depois no Tribunal de Justiça, em 2012, e em 2014, pelo Superior Tribunal de Justiça. Eu falo isso porque vocês são comunicadoras populares e muita gente não sabe disso”.

O depoimento da jornalista e escritora Amelinha foi chocante e emocionante ao mesmo tempo. 

“A resistência exige da gente conteúdo, conhecimento, porque se não... As pessoas perguntam: como você aguentou? Antes, eu vou falar: Ele entrou com meus filhos dentro da sala de tortura. A minha filha perguntou: - ‘Mãe, por que você está assim?’. Eu olhei para meu corpo e era só hematoma. Eu estava toda inchada”, contou.

“Havia muitas torturas sexuais, porque, eu preciso falar para vocês que, todo o tempo que você fica no DOI-Codi, sendo interrogada, na verdade é torturada e nua. Você fica nua o tempo todo na frente de vários homens. Eu não vou descrever tudo, mas, menstruação, aleitamento, gravidez, tudo é motivo para torturar, nós, mulheres. Eles usam nossas características, o que temos como mulheres - nós menstruamos, nós amamentamos, nós ficamos grávidas - então eles usam isso para nos torturar”, relatou Amelinha.

Após o depoimento, as participantes fizeram perguntas, reflexões e compartilharam experiências de autoproteção e autodefesa. A sistematização das experiências e ideias do seminário será a base de um documento coletivo que será entregue aos três poderes. 

O encerramento contou, ainda, com o sorteio de livros. Tive o privilégio de ganhar a obra “Heroínas desta História: Mulheres em busca de justiça por familiares mortos pela ditadura”, de Carla Borges e Tatiana Merlino (orgs.). Conforme sua apresentação: “É um livro sobre mulheres, feito por mulheres. Este primeiro volume traz 15 perfis redigidos por 15 autoras. A produção reuniu jornalistas, sociólogas, fotógrafas de diferentes gerações e trajetórias, e com a sensibilidade necessária para tocar em temas ainda latejantes” (BORGES e MERLINO, 2019, p.15) 

O Seminário sobre Segurança para Mulheres Comunicadoras e Jornalistas foi organizado pela Rede de Proteção de Jornalistas e Comunicadores, junto a Artigo 19, Instituto Vladimir Herzog (IVH), Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e Repórteres Sem Fronteiras (RSF), com apoio da Luminate – Building Stronger Societies, Derechos Digitales – América Latina, Ford Foundation e German Cooperation – Deutsche Zusammenarbeit. 



Rede sociais: @rede_protecao / E-mail: rededeprotecao@vladimirherzog.org / Site: https://rededeprotecao.org.br/

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