Crítica à novela Amor à Vida: Globo, os palestinos não se veem por aí
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| Em "Amor à Vida", Pérsio revela para Rebeca que foi um terrorista - Foto: Divulgação / TV Globo |
Em 19 de dezembro, foi ao ar na
chamada “novela das nove” da TV Globo, intitulada “Amor à vida”, uma cena que não
deixa dúvidas a quem serve à emissora: aos interesses hegemônicos e ao império.
A telenovela líder da audiência em âmbito nacional, seguida pelo Jornal
Nacional, apresentou na trama um romance entre um palestino, Pérsio (Mouhamed
Harfouch), e uma judia, Rebeca (Paula Braun).
No capítulo em questão, o
primeiro deles declara que pertenceu a uma “célula terrorista” e se diz
arrependido: “Eu queria ser um homem
bomba. Achava que era um sacrifício justo pela causa do meu povo. Só não fui
porque eu sou filho único, a minha mãe me procurou, insistiu demais pra eu
desistir. Mas eu ajudei a organizar um atentado. Um amigo meu, um amigo
próximo, foi o homem bomba. Ele entrou num ônibus em Jerusalém e explodiu,
matando muita gente. Mulheres, crianças… crianças como o seu irmãozinho,
Rebeca. Eu me senti culpado, quando vi o seu irmão, quando falei com a sua
família. Eu percebi que a guerra, o terrorismo, atinge pessoas indefesas,
crianças. Vendo aquele menino sorrindo, eu percebi que um dia eu quis atacar
crianças como ele. Como eu posso dizer que aquele menino é meu inimigo?”.
Alguns capítulos depois, no dia 30, em uma nova conversa, Rebeca se
recusa a falar com Pérsio, a não ser profissionalmente, pelo que ele quis fazer
com “seu povo”. E em cena no dia 7 de janeiro último, a personagem busca
conselhos junto a um rabino, já que teria se apaixonado por “um árabe, um
palestino”, pertencente a um “grupo terrorista”.
O diálogo que inaugura essa farsa é permeado por
desinformação, distorção e manipulação da verdade. Rebeca chega a afirmar que
há muitos casais judeus e palestinos em Israel, como conviria a qualquer estado
democrático. A verdade é que a própria convivência está comprometida. O
apartheid imposto aos palestinos impede até que vivam no mesmo bairro. Alguém
poderia afirmar que conhece um caso assim na atualidade. Mas não é essa a
regra. Os palestinos que vivem onde hoje é Israel (território palestino até
1948, ano da criação desse estado como exclusivamente judeu) são considerados
cidadãos de segunda ou terceira categoria, discriminados cotidianamente – há 30
leis racistas contra essas pessoas, que lhes impedem ter os mesmos direitos. Há
dezenas de aldeias em que vivem que sequer são reconhecidas por Israel, o que
significa que não lhes são assegurados serviços essenciais, como fornecimento
de eletricidade, água, educação e saúde de qualidade.
Quem é o terrorista?
Em 1948, ano que na memória coletiva
árabe é conhecido como “Nakba”, a catástrofe, foram expulsos de suas terras e
propriedades cerca de 800 mil palestinos e aproximadamente 500 aldeias foram
destruídas para dar lugar a Israel. Massacres exemplares são hoje comprovados.
Os palestinos, desumanizados desde o início desse projeto de limpeza étnica e
colonização de suas terras, não foram apagados da história graças a sua
resistência – apresentada na telenovela da Globo como terrorismo. Resistência
reconhecida pelo direito internacional como legítima diante da ocupação.
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| Mulher segura cartaz com charge do brasileiro Latuff sobre o bloqueio à Gaza, no Dia Internacional de Jerusalém (Al-Quds) em Nova York - Foto: Bud Korotzer |
Ademais, os chamados atentados
com homens bomba, atos desesperados perante o silêncio do mundo e a falta de
alternativas, há muito foram abandonados. A contextualização histórica sobre o
terror de Estado que fabricou esses “homens bomba”, durante um tempo
determinado, ficou fora da telinha. Assim como os contínuos ataques
israelenses, que atingem, sobretudo, crianças e mulheres, com tecnologias de
última geração vendidas depois ao mundo. Os laboratórios humanos em que se
transformaram os palestinos no shopping center que se converteu Israel à venda
de suas parafernálias militares também não encontraram lugar no diálogo que foi
ao ar na “novela das oito”.
O autor de “Amor à vida”, Walcyr
Carrasco, reforçou, assim, mitos que são denunciados pelo historiador
israelense Ilan Pappe em seu artigo “Os dez mitos de Israel”. Entre eles, de
que a luta palestina não tem outro objetivo que não o terror e que Israel é
“forçado” a responder à violência. Segundo ele, a história distorcida serve à
opressão, à colonização e à ocupação. “A ampla aceitação mundial da narrativa
sionista é baseada em um conjunto de mitos que, ao final, lançam dúvidas sobre
o direito moral palestino, o comportamento ético e as chances de qualquer paz
justa no futuro. A razão é que esses mitos são aceitos pela grande mídia no
Ocidente e pelas elites políticas como verdade.”
O Brasil não é exceção. Na
contramão da campanha global por boicotes ao apartheid israelense, o governo
federal se tornou nos últimos anos o segundo maior importador de tecnologias
militares da potência que ocupa a Palestina e porta de entrada dessa indústria
à América Latina. E sua cumplicidade com a opressão, ocupação e apartheid a que
estão submetidos os palestinos é justificada a milhares de espectadores
desavisados da novela da Globo, através de um discurso que reproduz a versão
falsificada da história e se fortalece perante a representação orientalista –
em que os árabes seriam “orientais” bárbaros e atrasados, ante cidadãos
pacíficos e civilizados, segundo explicita o intelectual palestino Edward Said
em seu livro “Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente”.
Democratização já!
Num cenário de concentração
midiática, preconceitos como esse – não são os únicos – são especialmente graves.
Assim como é bastante preocupante que o tradicional show natalino do cantor
Roberto Carlos, exibido na mesma emissora ao final de 2013, tenha sido
patrocinado pela marca Café Três Corações, que tem como acionista majoritária
uma empresa israelense cuja colaboração com a opressão em terras palestinas já
foi amplamente denunciada. Apesar do
crescimento acentuado de usuários da internet – que chegaram à marca de 94,2
milhões ao final de 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e
Estatística (Ibope) –, a maioria da população brasileira ainda se informa
sobretudo pela TV, presente em 96,9% dos domicílios, de acordo com a Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (Pnad/IBGE). Enquanto a propaganda nesse meio é o principal
impulsionador ao consumo, programas de entretenimento como as telenovelas
igualmente moldam comportamentos, conceitos e ideias. E a produção desses
encontra-se nas mãos de apenas seis famílias, detentoras das concessões públicas
que lhes garantem espaço para difundir livremente preconceitos e falsificações
históricas. Outorgas concedidas muitas vezes ao arrepio das leis vigentes,
renovadas pelo governo brasileiro sem qualquer critério para garantir a
pluralidade e diversidade na produção cultural.
Para transformar a realidade, é
fundamental reforçar a luta pela democratização das comunicações e denunciar
essas distorções que grassam na TV brasileira. É importante se somar às vozes
que, nas manifestações de junho de 2013, protestaram contra o monopólio da
mídia e elegeram para tanto o lema: “Globo, a gente não se vê por aqui”.
Por Soraya Misleh,
da Frente em Defesa do Povo Palestino e do Movimento Palestina Para Tod@s
da Frente em Defesa do Povo Palestino e do Movimento Palestina Para Tod@s
*Texto revisado e com imagens adicionadas pela autora deste blog.


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