"A vida é bela" no 7 de setembro
Depois de ver os comentários sobre a repressão policial
neste 7 de setembro, resolvi compartilhar minha “aventura” de hoje com meu
filho de 3 anos de idade.
Saímos atrasados de casa, chegamos à Praça da Sé, onde seria
a concentração do "Grito dos Excluídos", pouco depois das 11h. Os
manifestantes já haviam partido em caminhada, mas dezenas de policiais
militares continuavam no local.
Com meu filho nos braços, perguntei a um policial se fazia
tempo que os manifestantes haviam saído dali, ele disse que sim; perguntei em
que sentido haviam ido, ele disse que não sabia. Faz de conta que acreditei.
Resolvi fazer as mesmas perguntas para uma policial adiante e ela me informou
que o pessoal tinha ido ao sentido da Av. Paulista.
Eu sabia que o final do ato seria no Museu do Ipiranga,
localizado no Parque da Independência e resolvi ir direto para lá. Mas, antes,
na estação Paraíso, fui surpreendida com uma quantidade absurda de policiais.
Um metrô passou lotado de fardados no sentido do Masp (Museu de Arte de São Paulo).
Com minha curiosidade, esperei o próximo metrô e, ainda na
mesma estação, conversei com dois policiais. Questionei a quantidade de
policiamento. Eles falaram que era por conta dos Blacks Blocs que "pensam que podem quebrar São Paulo".
Então um deles falou: - "Tá vendo, esses vândalos querendo quebrar tudo, e
uma mãe não pode nem levar seu filho para passear!". O outro retrucou: -
"Mas acho que ela não está levando o filho para passear".
Com camisa de uma charge não-polêmica do Latuff, eu disse
que estava procurando a manifestação dos sindicatos e partidos. Ele disse: - “Aqueles
são outros que não têm o que fazer! Uns são vândalos, outros são
vagabundos!". Como não sou vagabunda, nem condeno os vândalos no caso dos
protestos, argumentei que as pessoas estão lutando pelos nossos direitos, que
eles deveriam estar ao lado dos lutadores, que um dia isso pode acontecer etc.
Terminamos chegando ao tema DESMILITARIZAÇÃO DA POLÍCIA.
Os policiais disseram que são a favor da desmilitarização,
mas que isso nunca vai acontecer no Brasil porque os "poderosos" não
têm interesse em ter centenas de batalhões de homens armados e treinados para a
guerra livres, que possam fazer greve e reivindicar seus direitos e os direitos
de todos. Disseram que a polícia militar nunca vai se tornar polícia civil
unificada, porque os governantes não querem correr o risco de "perder o
controle". Disseram, ainda, que a ditadura militar no Brasil nem acabou,
nem vai acabar, porque a Polícia Militar mantém os princípios da obediência, da
ordem e da punição cruel aos que não seguem seus princípios, tanto cidadãos,
quanto os próprios policiais.
Enquanto meu filho brincava com seu boneco e um aviãozinho,
o policial mais jovem falou: - "Você acha que a gente gosta de...? Não
posso nem falar, mas você entendeu". Questionei baixinho: - “Bater e
exterminar?”. Ele balançou a cabeça com sinal de “sim”. Falei que eles poderiam
ser uma polícia defensiva, não ofensiva. O rapaz disse: - “Essa é a questão,
nós cumprimos ordens”.
A simples conversa deixou claro que a mudança da política de
segurança no Brasil depende de uma forte pressão popular.
Distante dali, no Rio de Janeiro, onde a insatisfação da
população contra a polícia e contra o governo de Sérgio Cabral é grande, a
Guarda Municipal e o Exército foram vaiados, enquanto os bombeiros foram
aplaudidos. Isso mostra que o povo está cansado de tanta violência e que
percebe a (ir)responsabilidade do Estado para o crescimento desse mal.
De norte a sul do país o “Dia da Independência do Brasil”
foi marcado pelo desrespeito à liberdade, pela ausência de democracia, pela
repressão e violência policial. Os manifestantes – e não apenas eles – foram
atacados com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, cassetetes e houve até caso de utilização de armas letais. Muitos foram detidos.
Será mesmo que os policiais que conversei estão certos? Será
que a ditadura militar em nosso país não vai acabar? E o Brasil que “acordou”
contra a repressão policial aos protestos de junho, já voltou a dormir? Os
protestos dos que nunca dormiram continuam, a repressão também.
Hoje foi mais um dia que me senti no emocionante filme “A
vida é bela”, de Roberto Benigni. Para mim, um desgaste; para meu menino, uma
aventura divertida, que espero ter servido como contribuição para despertar sua
consciência revolucionária.
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